SEMINÁRIO DE TROPICOLOGIA

V REUNIÃO ORDINÁRIA

RECIFE, 22 DE SETEMBRO DE 1998

 

 

CONFERENCISTA: PAUL SINGER

TEMA: CRISE DO TRABALHO E ECONOMIA SOLIDÁRIA

 

 

Queria começar por agradecer a honra do convite que me fez a Fundação Joaquim Nabuco, de participar deste Seminário. Escolhi como tema A crise do trabalho e a economia solidária porque é um dos principais temas dos quais me ocupo nos últimos anos.

 

A crise do trabalho é um fenômeno muito notado, porque impacta a maioria das pessoas, em nosso país, em toda a América Latina, na Europa e nos outros continentes: tem sido objeto de muitos trabalhos, trabalhos de economia, de sociólogos, de cientistas políticos, e de antropólogos. E, apesar disso, ainda não é uma coisa inteiramente pacífica, há muita controvérsia a esse respeito. Eu diria que, a partir dos anos setenta, começa uma transformação no mundo do trabalho que, provavelmente, ainda está em curso. E que toma, por ser formas trágico, catastrófico para muitas pessoas, a forma de uma crise.

 

Até os anos setenta e isto não foi sempre, mas foi um período muito específico, depois da Segunda Guerra Mundial até o primeiro choque do petróleo, o capitalismo assistiu a um excepcional período de pleno emprego. Tão excepcional foi que nós o temos chamado dos Anos Dourados, os anos de ouro do capitalismo. Nesse período, nos países industrializados, a grande maioria da população, talvez mais de 80% da população economicamente ativa, tinha emprego assalariado, emprego assalariado formal, com usufruto normal, também, de todos os direitos conquistados pelo movimento operário, que derivavam desse status. Inclusive o de permanecer numa certa estabilidade, não perfeita, evidentemente, no próprio trabalho e de se aposentar depois de cumprido um certo período ou atingido uma certa idade. Essa normalidade começa a ser atingida a partir das mudanças políticas, econômicas e sociais da década de sessenta, e hoje se transformou em excepcionalidade. O grande resultado da crise do trabalho é que, mesmo nos países desenvolvidos e muito mais fortemente num país semidesenvolvido, como é o Brasil, ter emprego assalariado durante a vida inteira, tê-lo formalizado, usufruir dos direitos chamados trabalhistas, entre nós, torna-se cada vez mais um privilégio e não mais uma condição normal. Isso, a meu ver, dá uma boa idéia da profundidade da amplidão desta crise.

 

Para poder fazer um diagnóstico científico das causas dessa crise, seria necessário fazer uma análise completa da oferta de força de trabalho, das transformações demográficas, que ocorreram simultaneamente neste período, por exemplo, a grande entrada das mulheres no trabalho, no mercado formal do trabalho, coisa que não acontecia antes. As mulheres, não a maioria, mas uma grande parte delas estavam, ainda, ocupadas em criar uma família. Esta mudança no status econômico social da mulher é de enorme importância e tem a ver, evidentemente também com essa transformação.

 

Temos que fazer uma análise das transformações estruturais do uso do trabalho, aquilo a que se tem chamado de terceirização, nada a ver com a despedida em massa de trabalhadores, para reaproveitá-los enquanto fornecedores autônomos de serviços, que faz parte da crise. Mas estou falando da rápida expulsão do trabalho humano, das atividades de produção material. Na agricultura o assunto já é bem conhecido, é antigo, mas agora, na indústria, com mais intensidade do que aconteceu na agricultura, e, portanto, com a absorção da grande maioria da população economicamente ativa por atividade de serviço. Isso também é parte do pano de fundo dessa transformação catastrófica, nas suas conseqüências humanas, que é a crise do trabalho. Mas, como não tenho essa análise feita e não conheço quem tenha feito na sua inteireza, vou aqui destacar o que eu acho que é consensual, que são as três causas específicas mais importantes da crise do trabalho nos últimos vinte e poucos anos.

 

A primeira delas é a chamada Terceira Revolução Industrial. Estamos imersos em mais uma Revolução Industrial, a primeira da máquina a vapor no século XVIII, a segunda do motor a explosão, da energia elétrica, da química e assim por diante, no século XIX, e que atravessou uma boa parte do século XX. E, finalmente, essa Terceira Revolução Industrial, que tem como essência, a chamada microeletrônica. Ela é importante, em primeiro lugar, porque potencia de uma forma excepcional as forças produtivas. Graças à computação, graças à rápida telecomunicação via satélite, não só se criou uma unificação fantástica na comunicação e no processamento de dados, a possibilidade de negociar, de gerir, de conversar, de conviver a distância, mas essa revolução industrial teve um enorme impacto nos processos produtivos, liberando grande massa, milhões, milhões e milhões, de pessoas de trabalhos, relativamente, rotineiros e repetitivos, que a inteligência artificial dos robôs, de uma certa forma, faz mais barato e melhor.

 

A Terceira Revolução Industrial tem um impacto tão forte nesta crise, porque o seu efeito sobre a economia é, de certa forma, desbalançado, ou seja, toda revolução industrial ela cria, simultaneamente, novas formas de produzir com muito mais produtividade, portanto potencia o trabalho humano, mas, ela também potencia o consumo, ao criar novos produtos de consumo. Particularmente, a Segunda Revolução Industrial foi fertilíssima na criação de novos produtos de consumo, desde o automóvel e as dezenas de serviços de que o automóvel necessita, o avião, as telecomunicações, os novos remédios da quimioterapia, etc.

 

Em comparação com a Segunda Revolução Industrial, a Terceira Revolução Industrial foi, relativamente, estéril na invenção de novos produtos para o consumo. Eu diria que o computador pessoal, o microcomputador para uso doméstico, talvez, seja o mais importante bem durável de consumo surgido da Terceira Revolução Industrial, e a Internet, os serviços ligados à Internet. Nós temos, do lado dos consumidores, pouco estímulo a ampliar o consumo e ao mesmo tempo uma enorme economia de trabalho humano.

 

A segunda causa direta da crise do trabalho é o que tem sido chamado de Globalização. A Globalização que é um processo de eliminação de fronteiras nacionais, e portanto, de integração econômica, de economias nacionais, e, é um processo antigo, não é uma coisa que tem acontecido apenas nos últimos vinte ou trinta anos, tem no mínimo quatrocentos ou quinhentos anos. Eu diria que o primeiro passo para a Globalização foi a viagem de Marco Pólo à China, porque a partir dela começa a integração comercial entre a Ásia, a África e a Europa, e depois, com as grandes navegações, inclusive, englobando os nossos continentes. Porém, essa Globalização atingiu um novo patamar, sem dúvida, muito importante a partir da Pos-Segunda Guerra Mundial e seus efeitos mais fortes sobre a reorganização do trabalho humano, talvez, nos últimos vinte anos, coincidindo, portanto, com a crise do trabalho.

 

É, particularmente, importante entender que a liberalização dos fluxos de comércio que é, necessariamente, uma coisa vagarosa e gradativa devido aos enormes impactos negativos que tem a todos os mercados que se abrem. No nosso caso, o Brasil foi, relativamente, retardatário nessa abertura, nos mantivemos com um mercado interno bastante protegido até a década dos anos noventa e bruscamente a partir dos anos noventa abrimos o mercado interno e fomos testemunhas e vítimas de uma hecatombe industrial. Há setores industriais que simplesmente desapareceram do mapa econômico do nosso país. Outros setores foram dizimados pela entrada, ainda que gradativa, dos produtos importados com o tiro final do Plano Real em noventa e quatro, praticamente sem qualquer barreira aduaneira.

 

A Globalização é a combinação dessa liberalização das trocas comerciais com a total liberalização nos fluxos de capital. E é essa combinação que lhe dá um caráter novo, porque permite às empresas multinacionais, literalmente, se instalarem em qualquer ponto do Globo e reorganizar a geografia das suas atividades de acordo com o princípio de maximização de lucros ou minimização de custos. Hoje, nós temos alguma coisa em torno de quarenta mil multinacionais no mundo, e este número está crescendo muito rapidamente, mas muitas são empresas pequenas que têm uma ou duas sucursais em outros países. Mas as trezentas maiores são empresas que estão, literalmente, presentes nos quase cento e oitenta e seis países, que hoje formam a Comunidade das Nações e que abrange, praticamente, toda a população no mundo. E essas imensas empresas estão em grande número de mercados, embora, não possam monopolizar nenhum, por efeito de legislações antitruste que impedem isso. Mas elas, de qualquer forma, além de incorporar os avanços da Terceira Revolução Industrial, têm efeito de uma redistribuição dos postos de trabalho no mundo de uma transformação muito rápida da divisão internacional do trabalho. Quer dizer, o efeito da Globalização não é, em si, reduzir o trabalho humano, mas redistribuí-lo sistematicamente, acabando com o trabalho industrial nas áreas de tradição industrial nos antigos fortins industriais.

 

No nosso país, por exemplo, no subúrbio de São Paulo, no ABC paulista, ou em Detroit, nos E.U.A., ou no Rhur, na Alemanha, para citar alguns exemplos, e se cria essa figura do Rust Belt, o cinturão, a ferrugem, em que se tem cidade, metrópoles e regiões inteiras em que de repente se encontram cinqüenta por cento da população desempregada. Em que se encontram prédios e prédios industriais fechados, ou transformados, eventualmente, como tem acontecido no ABC paulista, em shoppings centers e em outras áreas de serviços. Isto faz parte da crise do trabalho, e que não precisaria fazer, se houvesse uma substituição de atividades industriais por atividades de serviços, mas em geral não há. No geral, o que acontece é que essas áreas por terem uma tradição dos salários maiores, uma tradição de luta sindical de pressão salarial e assim por diante, são, relativamente, abandonadas pelo capital que transfere esses postos de trabalho para áreas sem nenhuma tradição industrial e em que as relações de trabalho passam a ser informais e precárias, que é, exatamente, a característica da crise do trabalho.

 

E a terceira causa é o neoliberalismo. O neoliberalismo é um fenômeno político-ideológico muito importante, que significa a ressurreição de uma doutrina que tinha sido abandonada. Eu diria que é um fenômeno único, pelo menos na história moderna. E por isso ele é curioso, importante e provavelmente não inteiramente compreendido. O Liberalismo foi a ortodoxia do mundo capitalista até a crise dos anos trinta. Depois foi abandonado. A crise dos anos trinta foi tão profunda, tão prolongada, tão traumática que levou o capitalismo à beira da sua eventual extinção, que a idéia de que os mercados se auto-regulam e que se possa construir sociedades humanas livres, exclusivamente governadas por oferta e demanda em mercados, sem qualquer coordenação reguladora do Estado, foi inteiramente posta de lado. E quando eu estudei Economia, nos anos cinqüenta, essas idéias que ainda eram defendidas por alguns dos nossos professores, eram consideradas totalmente obsoletas. E nós, ingenuamente, estudantes, as atribuíamos ao atraso do nosso país. Vinte e cinco ou trinta anos depois, essas idéias voltam sem muitas mudanças, o neoliberalismo não é uma coisa importante, não houve grandes transformações, a não ser na forma de argumentar. Essas idéias voltam e tornam-se novamente ortodoxia, tornam-se novamente hegemônicas, e Keynes e tantos outros que eram os nossos mestres passam para o museu, passam a ser curiosidades obsoletas. E essa nova ideologia não somente toma conta da academia, dos acadêmicos em economia, mas passa a tomar conta das opiniões públicas, dos órgãos de comunicação de massa e assim por diante, passa a ser a verdade evidente.

 

Essa vaga vitoriosa do neoliberalismo está na raiz do abandono do pleno emprego, como grande objetivo da ação política governamental. Durante trinta anos era óbvio que a principal missão de qualquer governo democrático eleito era garantir que todos os que precisam trabalhar tenham uma boa oportunidade de encontrar trabalho. Esse era o objetivo fundamental. A estabilidade dos preços era um outro objetivo, eu diria, de segunda importante prioridade, depois da primeira. E num país, ainda incompletamente industrializado, como era o Brasil, o objetivo do desenvolvimento era absolutamente essencial. Então, desenvolver o país, fazê-lo crescer aceleradamente e com isso dar uma oportunidade à população de se inserir produtivamente na chamada parte moderna da economia, era evidente. Com a vitória do neoliberalismo, passou a ser evidente que quem cuida do emprego é o mercado, e que desemprego não é problema, por definição o desemprego é voluntário. As pessoas estão desempregadas porque estão procurando uma melhor oportunidade e é ilegítimo e ineficaz, ao mesmo tempo, o governo induzi-las a trabalhar quando não querem. Isto é mortalmente sério. Esta postura levou à priorização da estabilidade de preços, como sendo a principal atividade e objetivo da autoridade monetária, e a autoridade monetária, que geralmente é o Banco Central, como a única parte do governo autorizada a intervir na economia. Dentro da visão neoliberal, só a autoridade monetária faz política e só com um objetivo, ou seja, permitir aos mercados que os verdadeiros valores sejam determinados livremente por oferta e demanda, sem que o suprimento do meio corrente, da moeda, possa interferir nesse jogo. O resultado disso foi uma permanente sucessão de crises, de recessão e uma redução da taxa de crescimento da economia em todos os países e, portanto, na economia mundial. A cada década, a partir da década de sessenta, setenta, oitenta e noventa, as economias estão crescendo menos. E, não por acaso, neste momento, a economia mundial deve estar crescendo a dois por cento ao ano e, provavelmente, em 1999, vai crescer zero por cento. É a previsão mais segura.

 

Eu diria que das três causas, o neoliberalismo é a causa mais importante, condicionadora das outras. A Terceira Revolução Industrial é em si um resultado de progresso científico secular. A invenção da eletrônica e todo o desenvolvimento que precede à computação vem do século XIX, não é uma coisa recente. Recente é o desenvolvimento tecnológico que permite a utilização desses avanços científicos de uma forma econômica, de uma forma adequada. A própria Globalização, como eu insisti há pouco, é um fenômeno antigo e progressista, é uma tendência dos povos se aproximarem, das distâncias serem encurtadas e de que pessoas das diferentes partes do mundo estreitem o seu relacionamento, não só econômico, embora o econômico seja fundamental, mas também cultural, artístico, político, acadêmico, científico e assim por diante. O mundo ficou menor, e eu acredito que isso é alguma coisa não só inevitável, mas desejável.

 

Agora para que os efeitos da Globalização e da Revolução Industrial sobre o mundo do trabalho não tivessem esses efeitos trágicos que têm, teria sido necessário acelerar o crescimento da economia mundial. Se tivéssemos tido, na década de oitenta e noventa, as taxas de crescimento da ordem de cinco a seis por cento ao ano, que a economia mundial cresceu na década de cinqüenta e sessenta, que é uma demonstração de que pode crescer, e provavelmente os efeitos das transformações não seriam chamados por mim e por tantos outros, de crise do trabalho. O fato de se ter uma transformação tecnológica extremamente profunda e viesada contra o consumo e contra o trabalho, portanto, e uma globalização acelerada com o não crescimento, um crescimento medíocre das economias nacionais do primeiro, do segundo e do terceiro mundo é que produzem esses resultados de que eu estou falando.

 

O resultado que nós temos não é só um enorme desemprego. Nós somos, hoje, perfeitamente conhecedores disso. Jamais houve tanto desemprego no Brasil como hoje. Mas também jamais houve tanto desemprego na Alemanha, na França, na Argentina, no México, etc. Há muito desemprego no mundo, hoje. Na Europa, desde os anos trinta, que foi um período excepcional, não há tanto desemprego. É importante vocês não se resumirem ou satisfazerem com um número único. Aqui, no Recife, é da ordem de vinte e poucos por cento de desemprego, ou dezenove por cento em São Paulo. É preciso olhar mais de perto, desagregar esse número, por exemplo, o fato de que, geralmente, ele é o dobro entre os jovens. Temos um desemprego na ordem de quarenta ou cinqüenta por cento, entre as pessoas que precisam entrar no mercado de trabalho. E eu conheci gente, na Europa, que nunca conseguiu entrar, que nunca conseguiu um emprego na vida, e são pessoas mais jovens do que eu, mas são pessoas em torno dos quarenta e poucos anos. E não são, necessariamente, pobres. Há um processo de empobrecimento ao lado. É um processo de relativa marginalização. É um problema de perda de identidade ou de nunca aquisição de identidade, porque a identidade das pessoas está muito ligada ao seu trabalho, a sua profissão, a sua empresa, eventualmente, ou que é o que ela faça. Quando a pessoa passa a vida inteira com trabalhos temporários, trabalhos eventuais, essa pessoa não chega a formar uma identidade social com o mínimo de solidez, não chega a poder entrar no sindicato ou numa associação profissional, não chega a poder fazer uma carreira, acumular méritos e com isso avançar. Essa é a sina de uma geração que hoje já chegou à maturidade.

 

A crise do trabalho vai além do desemprego. Em São Paulo, o dado que eu tenho — provavelmente aqui não deve ser diferente — é que a duração do desemprego, a média, é de trinta e três semanas, quer dizer, em média, quem fica desempregado lá em São Paulo, passa mais de seis meses, fica uma média de oito meses, até conseguir um novo emprego. Mas uma grande parte passa mais de ano. Quando a média é de trinta e três semanas, 30% ou 40% dos desempregados passa mais de um ano. E isso tem efeitos destrutivos sobre essas pessoas muito graves. As pessoas, geralmente, perdem a família. Muitos dos desquites acontecem porque as famílias não conseguem aceitar que a pessoa não está se esforçando para conseguir emprego. Vocês não imaginam como o neoliberalismo entrou nos nossos lares! A idéia de que o desemprego é vagabundagem, que o desemprego é voluntário. Os desempregados crônicos ficam alcoólatras ou dependentes de outros produtos químicos e criam vícios, não poucos se suicidam.

 

Conheço um estudo feito na Escandinávia, mostrando como a cada porcentagem a mais de desemprego aumenta o gasto público de saúde, esse é o drama. O drama não é o desemprego em si, é o fato de você jogar, nessa situação, pessoas que pela sua idade jamais vão encontrar outro emprego. Se entre os jovens o desemprego é da ordem de 40% a 50%, imaginem entre os homens e mulheres com mais de 35 anos. Refiro-me com mais de 35 anos porque dizem que é quando começa a diminuir para zero a possibilidade de conseguir outro emprego.

 

A crise do trabalho é, basicamente, uma crise de exclusão social e tem repercussões. Eu poderia dizer que a crise da previdência, em grande parte, é uma crise do trabalho, evidentemente, porque cada vez menos gente consegue um trabalho que permita contribuir para a previdência social. Aí estaria a raiz da previdência, não é porque nós velhos vivemos mais, faz parte, é evidente, o fato de que nós em vez de morrermos aos setenta anos, vamos até os noventa torna o gasto maior. Se se tivesse uma entrada de gente jovem no sistema com alta produtividade e salários elevados, poder-se-ia pensar em compensar isso. Mas quando se tem, simultaneamente, aposentados que não morrem e trabalhadores novos que não chegam, aí evidentemente, o sistema entra em profundo desequilíbrio no mundo inteiro. Então dá para se ver uma série de conseqüências macro-econômicas da crise do trabalho.

 

Creio que, neste momento, nós estamos começando a assistir ao fim da crise do trabalho, por causa da crise financeira internacional, que não começou este ano, nem no ano passado, mas em noventa e quatro. Que claramente os fluxos de capital vão acabar. Vai ter que acabar, espero que mais cedo do que mais tarde. Mas, seja como for, é provável que se volte a um keynesianismo indispensável para se criar um mínimo de segurança nas transações financeiras e a partir daí, quem sabe, se voltará a ter políticas de empregos. Mas enquanto isso não acontece, isso vai levar algum tempo, até acontecer em todos os países. Em alguns países começarão antes, enquanto que em outros, o processo será mais lento. Mas, está surgindo uma coisa que eu gostaria de chamar a atenção, que é extremamente significativa neste panorama, e que eu costumo chamar de economia solidária. É um fenômeno que tem vários nomes. Nós poucos que estamos empenhados nestes estudos, ainda não unificamos o vocabulário. Alguns falam em economia social, outros em economia solidária, cooperativismo. Enfim, o que está acontecendo no mundo inteiro, com diferenças e muito poucas conhecidas, mas igualmente em nosso país, é o ressurgimento do que já aconteceu em outras épocas, o que se chama de cooperativismo, genericamente, mas é mais amplo do que um mero cooperativismo, ou seja, as pessoas vítimas da crise do trabalho, em geral, elas se viram, tentam sobreviver, trabalhando por conta própria. É a categoria que mais cresce no Brasil e nos outros países, o trabalho informal por conta própria. E quando são pessoas de classe média, que perderam o emprego como os engenheiros, os administradores, os economistas, contadores, etc que foram despedidos, mas que têm algum capital, eles compram uma perua e vendem hot dogs nas esquinas das nossas cidades. Ou montam uma cozinha industrial e vendem churros. Então tem sempre pessoas que tentam sobreviver com atividades informais.

 

Não estou querendo fazer drama aqui, estou querendo descrever uma novidade que é esperançosa e boa e terminar essa intervenção numa nota menos lúgrube. O fato concreto é de que a auto–ajuda individual que tem sido feita no mundo inteiro, não só no Brasil, ela na realidade tem limites, porque dentro da economia capitalista são poucos os setores em que não predomina o ganho em escala e quando há ganho em escala a atividade pequena não tem como sobreviver, quer dizer, trabalhar individualmente na produção de automóveis, ou de avião, ou de computadores, etc, computadores sim, pois existe um mercado de clones que permite que o indivíduo monte uma oficina de computadores, comprando as peças e montar o equipamento e, quem sabe, ganhar algum dinheiro, mas não é fácil. O que eu quero dizer é que poucos mercados em que há uma atividade do tipo artesanal, ou comercial de pequena escala, estão praticamente saturados por super-oferta, quer dizer, todo mundo excluído pela crise corre para esses mercados, o que é absolutamente normal. Então, hoje, não dá mais para sobreviver vendendo hot dog porque em cada esquina há quatro carros, tentando vender hot dog mais barato do que o outro. Pode parecer ridículo mas é verdadeiro.

 

Então estão ressurgindo formas coletivas de inserção de produção, ou seja, trabalhadores estão criando suas empresas a partir de zero. Em parte usando empresas capitalistas falidas. Pensei que fosse um fenômeno brasileiro, quando descobri a Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas Autogeridas-ANTEAG cuja sede é em São Paulo, mas aqui no Recife tem, por exemplo, os Cobertores Paraíba. Enfim, no Brasil inteiro, no momento, são quarenta as filiadas à ANTEAG, com cerca de dez mil pessoas. Pensei que essa fosse uma experiência brasileira, ou seja as empresas praticamente falidas, ou em processo de falência, em que são entregues o patrimônio, o local e algum equipamento aos trabalhadores, porque normalmente eles são os maiores credores da massa falida. Quando o Sindicato se habilita consegue. E aí acontece uma coisa difícil de entender para nós economistas: empresas que tinham sido levadas a altos graus de prosperidade na mão de seus donos quebraram e nas mãos dos seus inexperientes trabalhadores revivem e conseguem funcionar, pagam novamente os antigos salários que pagavam, dão até algum lucro, permitem que essas empresas comprem novos equipamentos e algumas vezes até expandam o número de seus trabalhadores, reempregando antigos colegas.

 

Estou descobrindo agora o que está acontecendo na Itália, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Espanha em grande medida, enfim por esse mundo afora. Como na crise do trabalho, a quebra de empresas, sobretudo, industriais, mas também comerciais e de outra natureza é muito grande, uma certa porcentagem de trabalhadores preserva a sua possibilidade de trabalhar, repartindo com os outros o ônus de reabilitar empresas falidas. Até hoje, eu não sei exatamente como é que eles conseguem. Sem dúvida com muito sacrifício. Sem dúvida, eles trabalham durante, possivelmente, vários meses, por cesta de comida. Mas o fato é que conseguem, e raramente, essas empresas afundam de vez, em geral eles conseguem, efetivamente fazer essas empresas voltarem a funcionar. E algumas das mais antigas que eu tenho acompanhado, e isso para mim é um objeto de pesquisa, já estão há mais de dez anos funcionando assim. Há uma mina de carvão em Criciúma, Santa Catarina, onde uma Cooperativa tem o nome ainda da massa falida, que está funcionando há treze anos, e paga os melhores salários da cidade. Essa é a economia solidária, a ela se devem juntar as Cooperativas do Movimento Sem-Terra que tem nos assentamentos de Reforma Agrária, só conseguem fazer uma agricultura minimamente rentável, unindo as terras e repartindo entre todas as famílias aquilo que se produz. Há umas setenta Cooperativas de Produção Agropecuária nos assentamentos da Reforma Agrária no nosso país. Há duzentas mil famílias assentadas. Alguns dos assentamentos viraram favelas rurais. Aliás, o normal é que todas virassem, porque a terra que se consegue para a Reforma Agrária é uma terra de qualidade muito ruim e não aproveitável pelos seus antigos proprietários. No entanto, nessas setenta Cooperativas há, de fato, acumulação, há progresso, estão passando de uma produção puramente agrícola para a agroindústria. Existem muitas outras coisas e eu estou falando só do Brasil, mas existe isso como fenômeno mundial. Há microprodutores que se unem em Bancos do Povo.

 

Um professor de Economia de Bangladesh chamado Iunos, colega meu, que descobriu que as mulheres camponesas de Bangladesh são ótimas mutuárias, pagam em dia se lhes emprestam alguma coisa e que para uma mulher dessas ganhar cem dólares de empréstimo é um enorme avanço na sua capacidade de melhorar a sua produção e a sua vida. Então, ele criou um banco em que o empréstimo não é feito a uma pessoa, mas a um grupo, a um grupo solidário. O grupo inteiro corresponsabiliza-se. Embora o empréstimo vá beneficiar uma daquelas mulheres, podem ser homens, também, mas setenta a oitenta por cento são mulheres. E o grau de inadimplência nesse sistema é menor do que nos bancos comerciais. Os bancos do povo não têm nenhum maternalismo ou paternalismo, cobram os juros maiores do que os bancos comerciais, mas eles atingem toda uma enorme quantidade de pobres que não têm nenhum acesso a bancos, mas tem acesso a usurários e esses usurários, naturalmente, cobram juros imensos e são ainda benfeitores deles. Não vamos nos enganar, porque entre eles, são esses empréstimos a juros gigantescos ou a morte. Para a gente que está à beira da miséria total, no caso de um acidente, de uma picada de cobra, de um parto quando alguém fique algum tempo sem trabalhar, já é o extermínio. Então, alguém entrar com algum dinheiro, pode ser o usurário, é a vida.

 

As experiências de bancos do povo foi aplicada com êxito na Bolívia, com o Banco Sol, Sol de solidariedade. Em Porto Alegre, existe um Banco do Povo que parece estar dando muito certo, outro em Brasília. Enfim, pela América Latina, pela África pela Ásia, está-se criando uma União, uma forma coletiva de no mínimo fazer poupança e redistribuir-se essa poupança para investimento em gente incrivelmente pobre, com resultados extremamente positivos. E existem os LETS. LETS é a sigla inglesa para sistemas locais de emprego e intercâmbio. São centenas de produtores, muitas vezes de classe média, gente que faz massagem, psicanalistas, consertadores de automóveis, acupunturistas, médicos, etc, que criam créditos entre eles muitas vezes imprimindo uma moeda própria do grupo: um dólar verde na hora de trabalho escrito numa nota, eles criam um mercado e estimulam. Quanto mais diversificado melhor. E isso está pegando feito fogo em palha na Argentina onde já existem centenas de grupos dessa natureza, na Espanha, na França. Começou nos países de língua inglesa. Sei de um grupo que está começando em São Paulo, lá em Pinheiros. E isso tem efeitos econômicos positivos, exatamente, porque essas pessoas estão todas de mercados saturadíssimos e com excesso de oferta e que não têm recursos para comprar porque não vendem e com essa idéia de criar um minis-sistema próprio, abrem essa possibilidade e hoje já se cria, graças à Terceira Revolução Industrial, possibilidades de se usar uma moeda, desse tipo, na Argentina para passar as férias na Espanha ou na França, porque hotéis, pensões estão, exatamente, neste sistema, se internacionalizando.

 

Quanto mais me empenho em estudar a economia solidária, mais tenho feito descobertas extremamente interessantes: como as pessoas são engenhosas e como quando elas se unem, quando elas conseguem criar laços fortes de confiança, de ajuda mútua conseguem resultados econômicos absolutamente surpreendentes. É isso, basicamente, que eu queria transmitir a vocês. É possível enfrentar a crise do trabalho, evidentemente, com uma grande mudança de política econômica que se faz necessária, para superar a crise financeira que está aí, não só atingindo o Brasil, mas atingindo a Ásia, a América Latina, e provavelmente acabará atingindo a Europa e os Estados Unidos. Mas, sobretudo, permitindo que a auto-iniciativa coletiva, de comunidades pobres, de trabalhadores em vias de perderem o emprego, pessoas das mais miseráveis da sociedade que se unem para fazer acampamentos junto às nossas estradas no interior, para depois ocupar alguma terra e finalmente, depois que ocupou a terra está em vias de morrer de fome, a não ser que consiga se unificar e trabalhar, coletivamente, para transformar aquela terra em alguma coisa economicamente produtiva.

 

Tudo isso está acontecendo e é menos conhecido, por isso eu acho tão importante falar sobre isso, porque aí está a esperança, enquanto as grandes transformações estão em curso e muito controvertido, isso ainda passa por várias batalhas políticas que vão ter que ser ganhas lá no Fundo Monetário Internacional, no Banco Mundial, na ONU, em diferentes países e no nosso também. Essas coisas podem começar a ser feitas desde já. Eu quero terminar dizendo que a comunidade acadêmica não está fora disso não, está dentro. Começou no Rio de Janeiro, a Universidade Federal do Rio de Janeiro criou há três anos uma incubadora de Cooperativas, que trabalha nas favelas do Rio de Janeiro. Essa incubadora tem hoje trinta Cooperativas em incubação, pelo menos dez delas já em funcionamento. Também nessas, exatamente, como no Banco do Povo, setenta por cento são mulheres. Essas mulheres que trabalhavam em limpeza, como empregadas domésticas, faxineiras e assim por diante, ganhando um salário mínimo, hoje ganham dois salários mínimos. Ainda é muito pouco, mas é imensamente mais do que o que elas tinham antes e trabalham coletivamente. Neste momento nós estamos criando incubadoras em mais seis estados, e eu estou usando a primeira pessoa do plural, porque na minha Universidade, lá em São Paulo, na USP, está-se criando, também, uma incubadora de cooperativas populares, até porque o campus em que eu trabalho, lá no Butantan, está cercado de favelas e nessas favelas, também, oitenta por cento dos chefes de família só têm uma possibilidade de ganhar, que é o narcotráfico. Não é diferente do Rio de Janeiro e, certamente, não é diferente do que está aqui. E nós vamos tentar oferecer uma saída coletiva a esses vizinhos da nossa universidade, para começar. A mesma coisa está acontecendo aqui em Pernambuco, acho que a Universidade Federal Rural de Pernambuco está criando uma incubadora; na Bahia, e todos os estados, espero que façam isso. Portanto, a economia solidária não é só uma notícia que eu queria trazer a vocês, acho que é uma nova, interessante e boa para quem quiser se engajar numa tarefa. Obrigado.